segunda-feira, 7 de março de 2016

Unificação

Mariana Félix

Era fácil. Pelo menos parecia ser. Na verdade não. Ou sim. Eu achava que era. Por um tempo, claro. Depois se tornou difícil, ou talvez eu tornei difícil. Não sei.
Não me julgue. Há uma dualidade dentro de mim, dentro da minha cabeça que me faz pensar demais, e isso acaba refletindo nos meus dedos que estão escrevendo isso aqui.
Perdoe-me, mas a culpa não foi minha, pelo menos não completamente. Parte dela foi sua, por me fazer acreditar em coisas que não eram verdades, mas que meu coração apaixonado inibiu meu cérebro a achar que realmente era aquilo que eu estava “vendo”, ou que você estava fingindo ser.
É complicado lhe dar com a razão e a emoção, principalmente quando uma está contra a outra.
Por um tempo elas andaram juntas, lado a lado, uma concordando com a outra, mas depois houve um conflito interno, quando a razão começou a falar mais alto, e a questionar a emoção, perguntando “Porque?”, quando na verdade não se tinha um “Porque”. Isso complicava ainda mais. No amor não se há um porque, apenas há. É uma coisa abstrata,  a gente sabe que existe, sabe o que é, mas não vê.
Não me pergunte o porquê. Aconteceu, simplesmente aconteceu.
Meus olhos enxergaram você em meio aquela multidão de gente. E aí me perguntam “Porque ele? Logo ele?”. Já disse, não sei.
Talvez tenha sido um tipo de reconhecimento de alma, talvez atração carnal, talvez paixão a primeira vista, ou talvez porque tinha que ser você, apenas isso.
Como eu disse, acontece, simplesmente acontece. E aconteceu. O que?
O amor aconteceu. Nossos olhares se cruzaram. Eu senti um frio na barriga, mas não foi daqueles que a gente sente quando ta na montanha russa num parque de diversão. Esse foi diferente, foi especifico, especifico da paixão que tinha acabado de se instalar em mim. Um tipo de alegria misturada com medo, enjoo misturado com ansiedade, palpitação com falta de ar, e assim vai.
Olhei pra você, você pra mim, e ali se foram os 42 segundos dessa sensação estranha que estava me corroendo.
Não fui como a maioria das pessoas que começam a olhar da cabeça para baixo. Foi estranho o modo como analisei cada centímetro do seu corpo.
Comecei pelos olhos negros, tão negros que mal dava pra enxergar a bolinha preta no meio deles, depois fui pra boca (e que boca), pulei pros pés, quase imitando os saltos que o meu coração estava dando. Provavelmente você que esta lendo achou estranho, e realmente é.  Seus pés. Lembro-me bem, você usando aquele All Star preto básico, que todo mundo tem, mas juro que em você era diferente, não sei se era porque EU estava olhando, eu se era isso mesmo.
Dos pés eu fui pros braços, que não eram tão grandes, nem eram tão pequenos, eram normais.
E claro, eu não poderia deixar de reparar o seu cabelo bagunçado por causa do vento. Ele tinha uma cor que não era normal se encontrar. Um ruivo misturado com castanho e loiro, não sei identificar bem.
42 segundos se passaram. Ele atravessou a rua, pegou em minhas mãos, e a sensação que eu tive, é que eu tinha o mundo bem em minha frente.
Sabe a historia de dualidade entre razão e emoção? A partir dali deu-se fim, as duas se tornaram uma só, assim como eu e ele.

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